Conto
Singular ocorrência

Publicado em Gazeta de Notícias, 30 de Maio de 1883
Publicado em Histórias sem data (1884), Garnier.

Igreja de S. Cruz dos Militares,

Richard Bates, século XIX

Igreja da Cruz


Igreja da Cruz - R. Primeiro de Março, 36 - Rio de Janeiro


SINGULAR OCORRÊNCIA

— Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na igreja da Cruz? [1] Parou agora no adro [2] para dar uma esmola.

— De preto?

— Justamente; lá vai entrando; entrou.

— Não ponha mais na carta[3]. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua recordação de outro tempo, e não há de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de truz.[4]

— Deve ter quarenta e seis anos.

— Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está viúva, naturalmente?

— Não.

— Bem; o marido ainda vive. É velho?

— Não é casada.

— Solteira?

— Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia com o nome familiar de Marocas [5]. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas; vá excluindo as profissões e lá chegará.[6] Morava na rua do Sacramento.[7] Já então era esbelta, e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o vestido afogado, escorrido, sem espavento,[8] arrastava a muitos, ainda assim.

— Por exemplo, ao senhor.

— Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis anos, meio advogado, meio político, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, donde viera em 1859. Era bonita a mulher dele, afetuosa, meiga e resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois anos.[9]

— Apesar disso, a Marocas...?

— É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa, conto-lhe uma coisa interessante.

— Diga.

— A primeira vez que ele a encontrou, foi à porta da loja Paula Brito [10], no Rocio. Estava ali, viu a distância uma mulher bonita, e esperou, já alvoroçado, porque ele tinha em alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha andando, parando e olhando como quem procura alguma casa. Defronte da loja deteve-se um instante; depois, envergonhada e a medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o número ali escrito. Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a altura provável da casa. Ela cortejou com muita graça; ele ficou sem saber o que pensasse da pergunta.

— Como eu estou.

— Nada mais simples: Marocas não sabia ler [11]. Ele não chegou a suspeitá-lo. Viu-a atravessar o Rocio, que ainda não tinha estátua nem jardim, e ir à casa que buscava, ainda assim perguntando em outras. De noite foi ao Ginásio; dava-se a Dama das Camélias; Marocas estava lá, e, no último ato, chorou como uma criança.[12] Não lhe digo nada; no fim de quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados [13], e creio que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sozinha, vivendo para o Andrade, não querendo outra afeição, não cogitando de nenhum outro interesse.

— Como a dama das Camélias.

— Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me ele um dia; e foi então que me contou a anedota do Rocio [14]. Marocas aprendeu depressa. Compreende-se; o vexame de não saber, o desejo de conhecer os romances em que ele lhe falava, e finalmente o gosto de obedecer a um desejo dele, de lhe ser agradável... Não me encobriu nada; contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não imagina. Eu tinha a confiança de ambos. Jantávamos às vezes os três juntos; e... não sei por que negá-lo, — algumas vezes os quatro [15]. Não cuide que eram jantares de gente pândega; alegres, mas honestos [16]. Marocas gostava da linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco estabeleceu-se intimidade entre nós; ela interrogava-me acerca da vida do Andrade, da mulher, da filha, dos hábitos dele, se gostava deveras dela, ou se era um capricho, se tivera outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva de perguntas, e um receio de o perder, que mostravam a força e a sinceridade da afeição... Um dia, uma festa de São João [17], o Andrade acompanhou a família à Gávea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dois dias de ausência. Eu fui com eles. Marocas, ao despedir-se, recordou a comédia que ouvira algumas semanas antes no Ginásio — Janto com minha mãe [18] — e disse-me que, não tendo família para passar a festa de São João, ia fazer como a Sofia Arnoult da comédia [19], ia jantar com um retrato; mas não seria o da mãe, porque não tinha, e sim do Andrade. Este dito ia- lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se; ela, porém, vendo que eu estava ali, afastou-o delicadamente com a mão.

— Gosto desse gesto.

— Ele não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambas as mãos, e, paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gávea. De caminho disse-me a respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as últimas frioleiras de ambos, falou-me do projeto a que tinha de comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse dispor de dinheiro; e, de passagem, elogiou a modéstia da moça, que não queria receber dele mais do que o estritamente necessário. Há mais do que isso, disse-lhe eu; e contei-lhe uma coisa que sabia, isto é, que cerca de três semanas antes, a Marocas empenhara algumas joias para pagar uma conta da costureira. Esta notícia abalou-o muito; não juro, mas creio que ficou com os olhos molhados. Em todo o caso, depois de cogitar algum tempo, disse- me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pô-la ao abrigo da miséria. Na Gávea ainda falamos da Marocas, até que as festas acabaram, e nós voltamos[20]. O Andrade deixou a família em casa, na Lapa [21], e foi ao escritório aviar alguns papéis urgentes. Pouco depois do meio-dia apareceu-lhe um tal Leandro, ex-agente de certo advogado a pedir-lhe, como de costume, dois ou três mil-réis [22]. Era um sujeito reles e vadio. Vivia a explorar os amigos do antigo patrão [23]. Andrade deu-lhe três mil-réis, e, como o visse excepcionalmente risonho, perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde. [24] O Leandro piscou os olhos e lambeu os beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedotas eróticas, perguntou-lhe se eram amores. Ele mastigou um pouco, e confessou que sim.

— Olhe; lá vem ela saindo: não é ela?

— Ela mesma; afastemo-nos da esquina.

— Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duquesa. [25]

— Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do Ouvidor...

— Sim, senhor. Compreendo o Andrade.

— Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na véspera uma fortuna rara, ou antes única, uma coisa que ele nunca esperara achar, nem merecia mesmo, porque se conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas enfim, os pobres também são filhos de Deus. Foi o caso que, na véspera, perto das dez horas da noite, encontrara no Rocio uma dama vestida com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada num xale grande. A dama vinha atrás dele, e mais depressa; ao passar rentezinha com ele, fitou-lhe muito os olhos, e foi andando devagar, como quem espera. O pobre diabo imaginou que era engano de pessoa; confessou ao Andrade que, apesar da roupa simples, viu logo que não era coisa para os seus beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal instância, que ele chegou atrever-se um pouco; ela atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que casa, que sala rica! Coisa papafina. E depois o desinteresse... "Olhe, acrescentou ele, para Vossa Senhoria é que era um bom arranjo." Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava o comborço.[26] Mas o Leandro teimou [27]; era na rua do Sacramento, número tantos...

— Não me diga isso!

— Imagine como não ficou o Andrade. Ele mesmo não soube o que fez nem o que disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu. Afinal teve força para perguntar se era verdade o que estava contando; mas o outro advertiu que não tinha nenhuma necessidade de inventar semelhante coisa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade, pediu-lhe segredo, dizendo que ele, pela sua parte, era discreto [28]. Parece que ia sair; Andrade deteve-o e propôs-lhe um negócio; propôs-lhe ganhar vinte mil-réis [29]. — "Pronto!" — "Dou- lhe vinte mil-réis, se você for comigo à casa dessa moça e disser em presença dela que é ela mesma."

— Oh!

— Não defendo o Andrade; a coisa não era bonita; mas a paixão, nesse caso, cega os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas o golpe fora tão profundo, e ele amava-a tanto que não recuou diante de uma tal vingança.

— O outro aceitou? [30]

— Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte mil-réis... Pôs uma condição: não metê-lo em barulhos... Marocas estava na sala, quando o Andrade entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o abraçar; mas o Andrade advertiu-a, com o gesto, que trazia alguém. Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas empalideceu. — "É esta senhora?" perguntou ele. — "Sim, senhor", murmurou o Leandro com voz sumida, porque há ações ainda mais ignóbeis do que o próprio homem que as comete [31]. Andrade abriu a carteira com grande afetação, tirou uma [32] nota de vinte mil-réis e deu-lha; e, com a mesma afetação, ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro saiu. A cena que se seguiu, foi breve, mas dramática. Não a soube inteiramente, porque o próprio Andrade é que me contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que muita coisa lhe escapou. Ela não confessou nada; mas estava fora de si, e, quando ele, depois de lhe dizer as coisas mais duras do mundo, atirou-se para a porta, ela rojou-se-lhe aos pés, agarrou-lhe as mãos, lacrimosa, desesperada, ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no patamar da escada; ele desceu vertiginosamente e saiu.

— Na verdade, um sujeito reles, apanhado na rua; provavelmente eram hábitos dela?

— Não.

— Não?[33]

— Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veio à minha casa, e esperou por mim. Já me tinha procurado três vezes. Fiquei estupefato; mas como duvidar, se ele tivera a precaução de levar a prova até à evidência?[34] Não lhe conto o que ouvi, os planos de vingança, as exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estilo e todo o repertório dessas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal, vivesse para a mulher e a filha, a mulher tão boa, tão meiga... Ele concordava, mas tornava ao furor. Do furor passou à dúvida; chegou a imaginar que a Marocas, com o fim de o experimentar, inventara o artifício e pagara ao Leandro para vir dizer-lhe aquilo; e a prova é que o Leandro, não querendo ele saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o número.[35] E agarrado a esta inverossimilhança, [36] tentava fugir à realidade; mas a realidade vinha — a palidez de Marocas, a alegria sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio até que ele arrependia-se de ter ido tão longe. Quanto a mim, cogitava na aventura, sem atinar com a explicação. Tão modesta! maneiras tão acanhadas!

— Há uma frase de teatro que pode explicar a aventura, uma frase de Augier, creio eu: "a nostalgia da lama". [37]

— Acho que não; mas vá ouvindo. Às dez horas apareceu-nos em casa uma criada de Marocas, uma preta forra [38], muito amiga da ama. Andava aflita em procura do Andrade, porque a Marocas, depois de chorar muito, trancada no quarto, saiu de casa sem jantar, e não voltara mais. Contive o Andrade, cujo primeiro gesto foi para sair logo. A preta pedia- nos por tudo que fôssemos descobrir a ama. "Não é costume dela sair?" perguntou o Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era costume. "Está ouvindo?" bradou ele para mim. Era a esperança que de novo empolgara o coração do pobre diabo. "E ontem?..." disse eu. A preta respondeu que na véspera sim; mas não lhe perguntei mais nada, tive compaixão do Andrade, cuja aflição crescia, e cujo pundonor ia cedendo diante do perigo. Saímos em busca da Marocas; fomos a todas as casas em que era possível encontrá-la; fomos à polícia; mas a noite passou-se sem outro resultado. De manhã voltamos à polícia. O chefe ou um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da aventura a parte conveniente;[39] aliás a ligação do Andrade e da Marocas era conhecida de todos os seus amigos.[40]Pesquisou-se tudo; nenhum desastre se dera durante a noite; as barcas da praia Grande [41] não viram cair ao mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam nenhuma; as boticas nenhum veneno. A polícia pôs em campo todos os seus recursos, e nada. Não lhe digo o estado de aflição em que o pobre Andrade viveu durante essas longas horas, porque todo o dia se passou em pesquisas inúteis. Não era só a dor de a perder; era também o remorso, a dúvida, ao menos, da consciência, em presença de um possível desastre, que parecia justificar a moça. Ele perguntava-me, a cada passo, se não era natural fazer o que fez, no delírio da indignação, se eu não faria a mesma coisa. Mas depois tornava a afirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o mesmo ardor com que na véspera tentara provar que era falsa; o que ele queria era acomodar a realidade ao sentimento da ocasião. [42]

— Mas, enfim, descobriram a Marocas?

— Estávamos comendo alguma coisa, em um hotel, eram perto de oito horas, quando recebemos notícia de um vestígio: — um cocheiro que levara na véspera uma senhora para o Jardim Botânico, [43] onde ela entrou em uma hospedaria, e ficou. Nem acabamos o jantar; fomos no mesmo carro ao Jardim Botânico. O dono da hospedaria confirmou a versão; acrescentando que a pessoa se recolhera a um quarto, não comera nada desde que chegou na véspera; apenas pediu uma xícara de café; parecia profundamente abatida. Encaminhamo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu à porta; ela respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo de preparar nada; empurrou-me, e caíram nos braços um do outro. Marocas chorou muito e perdeu os sentidos.

— Tudo se explicou?

— Coisa nenhuma. Nenhum deles tornou ao assunto; livres de um naufrágio, não quiseram saber nada da tempestade que os meteu a pique. [44] A reconciliação fez-se depressa. O Andrade comprou-lhe, meses depois, uma casinha em Catumbi; a Marocas deu-lhe um filho, que morreu de dois anos. Quando ele seguiu para o norte, em comissão do governo, a afeição era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não tivessem já a mesma intensidade. Não obstante, ela quis ir também;[45] fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade contava tornar ao fim de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu na província. A Marocas sentiu profundamente a morte, pôs luto, e considerou-se viúva; [46] sei que nos três primeiros anos, ouvia sempre uma missa no dia do aniversário. Há dez anos perdi-a de vista. Que lhe parece tudo isto?

— Realmente, há ocorrências bem singulares, se o senhor não abusou da minha ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...

— Não inventei nada; é a realidade pura. [47]

— Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão sincera... Eu ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama. [48]

— Não: nunca a Marocas descera até aos Leandros. [49]

— Então por que desceria naquela noite?

— Era um homem que ela supunha separado, por um abismo, de todas as suas relações pessoais; daí a confiança. Mas o acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo tempo... Enfim, coisas! [50]


[1] Igreja Santa Cruz dos Militares, localizada na R. Primeiro de Março (antiga rua Direita), 36; esquina com Rua do Ouvidor. Colocar a cena em uma igreja demonstra cautela do autor ao abordar um conto picante.

[2] Adro: parte externa da igreja, entre a porta e a rua

[3] ​"Não aposte mais" ou seja " já adivinhei" uma expressão do jogo de baralho.

[4] mulher de primeira, excelente

[5] Observe uma ironia. O narrador está fazendo fofocas, um marocas, e o autor atribui este apelido a uma mulher discreta. O "Dona" Maria, revela que a prostituta Marocas tornou-se uma pessoa de posse e mudou de nome.

[6]Mestra de meninas, sinônimo de profesora. Só resta prostituta.

[7] Rua do Sacramento : Aberta em 1820, quando foi inaugurada a Igreja do Santíssimo Sacramento. A partir de 1910 passou a chamar-se Avenida Passos. Faz esquina com a praça do Rocio. Era o caminho para a região do meretrício, hoje Cidade Nova

[8] espavento: discreto

[9] O provinciano bacharel e político que imigrava para Rio. Personagem frequente nas crônicas de Machado.

[10] Paula Brito: O largo Rocio é a atual Praça Tiradentes. A loja Paula Brito, tipografia, livraria e papelaria, estava localizada no n. 66. Ali funcionava a "sociedade petalógica do rossio grande" ( 1840-1860) ironicamente denominada (peta = mentira), onde se reuniam os escritores (Manuel Antonio de Almeida, Joaquim Manuel de Macedo, Gonçalvez Dias), Machado passa a frequentar este círculo a partir de 1853, a publicar seus poemas na Marmota em 1855 e a trabalhar como revisor na tipografia em 1858.

[11] A prostituta Marocas utiliza o pretexto do número no papel para capturar um cliente. O narrador já tinha nos avisado que "Andrade tinha uma paixão pelas mulheres". Mesmo não sabendo ler ela bem que poderia identificar números, o que mostra a ingenuidade do procedimento para começar uma conversa atraente.

​[12] A primeira encenação no Teatro Ginásio Dramático: A Damas das Camélias de Alexandre Dumas foi em 1856. Esta peça teve ter impressionado muito Machado que escreve uma crítica em 1860 em O Espelho: "A dama das camélias sustenta no meio da sociedade este princípio de que a pérola do amor pode ser encontrada, rara embora, no coração da mulher perdida". Mais à frente, acrescenta que "são raras essas almas do lodo que podem conter a pérola dos afetos supremos, mas há-as". No enredo da Dama das Camélias uma prostituta de luxo se enamora de um nobre que a abandona. Este tema é reproduzido neste conto.

[13] Como no romance de Dumas, um burguês casado apaixona-se por uma prostituta. Por amor ela abandona os amantes e torna-se exclusiva.

[14] Como descrito na nota [11], era uma "anedota", uma mentirinha, Marocas desconhecer os números.

[15] A quarta pessoa talvez fosse uma amante do narrador. "Riso nos olhos" figura da linguagem poética

[16] "não cuide que eram jantares de gente pândega", ou seja não era uma farra.

​[17] A festa de São João é comum nos textos de Machado. Devia ter uma importância grande no Rio de Janeiro à época. Por exemplo em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Cap. VI cita uma festa de São João.

​[18] A peça " Jantar com minha mãe" deve ser uma adaptação francesa de " Je dine chez ma mère" , de Decourcelle e Thiboijst , encenada pela primeira vez em Paris no teatro Gymnase-Dramatique em 31 de dezembro de 1855. As comédias francesas eram rapidamente traduzidas e apresentadas no Brasil, assim, é bem provável que esta peça tenha sido encenada em 1856, quando Machado ainda exercia a função de crítico teatral.

​[19] Sophie Arnould ( 1740-1802) era uma famosa cantora lírica do período napoleônico, que tem uma relação adúltera com um duque. No teatro ela representada como uma amante rejeitada pelo senhor que a abandona para jantar com a família, como Andrade. Ao final, cena XI, ela prende o medalhão com a imagem de sua mãe e diz: "Não se perturbe, fique com sua família, eu vou jantar com minha mãe.", ou seja ressentida ela pode procurar outro amante para vingar-se do abandono.

[20] A Gávea era formada por chácaras. Passar os feriados juninos "longe da cidade" era como se fosse uma excursão de alguns dias fora da cidade.

[21] A Lapa era um bairro habitado por funcionários públicos que formavam uma classe média. Machado ali morou a partir de 1874 e antes de mudar-se para o Cosme Velho.

​[22] Aproximadamente uns R$ 500,00 considerando que à época um jornal custava $ 40.00 réis.

[23] Praticava uma sutil extorsão por conhecer os desvios praticados pelos advogados amigos de seu patrão.

​[24] Provavelmente "passarinho verde" é uma gíria para indicar alguém que fez sexo e está feliz, Machado menciona o termo em outros textos.

​[25] Esta pausa e corte de cena cria um suspense adicional. Um ar de duquesa é uma alusão à Sophie Arnould, amante de um duque. Subir a rua do Ouvidor (afastar-do mar), confirma a observação [1] pois a Igreja esta na esquina da Rua do Ouvidor com Rua Direita.

[26]​Comborço, é o amante ou marido da ex-mulher. A genialidade de Machado consiste em encontrar a palavra exata. Comborço traz não só uma reviravolta na história como uma carga de ironia. Andrade "não lhe cheirava o comborço" ou seja não se sentiria bem ser amante de uma mulher que já foi de outro. Contudo estava falando com Leandro, um comborço de uma amante que julgava ter exclusividade. Em um lance teatral Leandro instiga o ciúme do amante.

[27] Leandro, um sujeito vadio, vivia de pequenos golpes. Tão logo fez sexo com a amante de Andrade, correu a contar-lhe, criando uma armadilha para o ciumento advogado. Pode-se imaginar que Leandro conhecia o relacionamento extra-conjugal de Andrade com Marocas. Porém como vemos,

[28] "era discreto" embora estivesse propositalmente cometendo uma indiscrição.

[29] Vinte mil réis seria o equivalente a mil dólares.

[30] Novo corte, como se fosse um ato dentro de uma peça contada em dois ambientes. Um homem adúltero como Andrade, também poderia ser digno e sincero, uma bela ironia.

[31] Leandro é o malandro acabado. Cínico quando necessário, se faz passar por amigo honesto. Pratica a extorsão emocional sem que a vítima disso perceba.

​[32] "nota de 20 mil réis" aparentemente é uma metáfora pois não existia notas desse valor na época do Império.

[33] Corte e outra cena, uma tática para prender a atenção do leitor, dele participar da narrativa como se fosse um interlocutor. A história contada pelo Leandro, de ter sido seduzido por Maria de tal.. , não é confiável. Antes ao contrário, ele bem pode ter armado o golpe seduzindo-a, pois não "era hábito dela apanhar clientes na rua", ao menos depois de conhecer o Andrade

[34] Um trocadilho de Machado transformando a linguagem. Em geral uma evidência é inferior à uma prova. Ao colocar de modo reverso, da prova até a evidência, adiciona um toque de imaginação

[35] Um lance psicológico de dissonância cognitiva. Andrade estabelece uma hipótese, até plausível dado o caráter ignóbil do Leandro, de tudo ser uma história inventada para causar ciúmes, buscava um bálsamo contra a dor da traição.

​[36] Inverossimilhança - uma narrativa possível em que não dá para acreditar. Na literatura é um modo de desenrolar uma narrativa de modo que o leitor acredite que a ficção é bem possível que tenha um correspondente na realidade, ou na estrutura da história.

[37] Machado lembra-se das peças de costumes de sua juventude. Refere-se à "Le Mariage d'Olympe" de Émile Augier, que estrou no Theatre de Vaudeville (Paris) em 17-07-1855. No final do Ato I, refere-se a uma prostituta que, depois de conseguir um casamento e uma reputação, volta a se prostituir. Montrichard diz: " La nostalgie de la boue!", ou seja Olympe retorna ao meretrício depois de uma vida honrada como se tivesse saudades dos tempos da vida de prostituta. A idéia de "lodo" estava presente na crítica de Machado à Dama das Camélias, veja nota [12 ]

[38] "preta forra", escrava alforriada. Continua a trabalhar em regime de servidão como se fosse uma empregada, ou agregada, que trabalha para uma "ama" pelo abrigo e comida, sem salário. Situação muito comum à época antes e após a Abolição (1888).

[39] "a parte conveniente" , ou seja: ocultou que tinha sido traído

[40] Um adultério em aberto, conhecido dos amigos, talvez até da própria esposa, pois à época o adultério masculino era aceito. O adultério feminino, porém, era reprimido chegando até ao assassinato da adúltera.

[41] barcas da praia Grande, são as barcas que faziam o trajeto atual do Rio a Niterói. Praia Grande era o nome do porto em Niterói. Pular da barca que ia para Niterói era um dos modos de cometer suicídio, como o veneno ou um tiro.

[42] Uma introspecção psicológica no sentido de culpa do homem traído que nega o suporte à amante. A indecisão de aceitação e negação mostra uma percepção psicológica refinada do estado de ânimo entre o amor e ódio e as justificativas para alívio da dor.

[43] Uma hospedaria localizada no Jardim Botânico seria o lugar ideal para se refugiar, dado a distância que estava do centro da cidade à época. O Bairro faz divisa com a Gávea onde Andrade passou a festa de S. João. É possível que Maria tenha traído Andrade ressentida pela ausência do amante durante um período festivo. Sua fuga para um local distante como o Jardim Botânico e próximo à Gávea sugere esta interpretação.

[44] O naufrágio é um tema constante em Machado, dado o medo que tinha da navegação marítima, comum à época do que tinha sido vítima seu amigo e protetor Manuel Antonio de Almeida.

[45] Mudar levando a família e a amante também ocorre em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Cap. LXXX.

[46] "Considerou-se viúva", veste-se de preto para assistir a missa na Igreja da Cruz, conforme nota [1], resolvendo nessa parte do conto o mistério proposto no início.

[47] O autor reflete a arte literária: é um romance da imaginação ou a descrição de uma situação real? O conto esta estruturado como se fosse uma peça de teatro. Um diálogo entre um narrador, que faz um "flash-back" , e um destinatário que faz observações como contraponto. Quando o Narrador afirma " não inventei nada, é pura realidade" ele assume a posição do autor. Tudo o que escrevo é "pura realidade", porém como sabemos tudo o que está escrito é pura criação imaginativa e realidade ao mesmo tempo. Uma vez definido o texto não importa mais se a descrição baseia-se ou não na realidade. A escrita construiu uma realidade.

[48] Fica ainda a questão: o que faria uma amante exclusiva voltar-se à se prostituir? Seria verdadeira a história contada por Leandro:ter sido seduzido por uma prostitua? Teria Marocas voltado à vida de prostituta? A "nostalgia da lama" retira qualquer traço romântico da narrativa, como na peça de teatro uma amante exclusiva volta a se prostituir.
[49] Embora Leandro soubesse da relação de Marocas com Andrade, Marocas não imaginava que Leandro soubesse do caso com Andrade.

[50] "O acaso é um Deus e um Diabo ao mesmo tempo". Um fecho moral e cético. Não controlamos nosso destino, movemos ao acaso e não temos certeza se bem ou mal, pois tanto Deus como o Diabo podem estar nos nossos atos fortuitos.

--------------------------------------------------------------

Uma possível interpretação.

O desenvolvimento do conto assemelha-se a uma peça de teatro, na qual o leitor é um espectador. A cena localiza-se no espaço em que Machado vivia aos vinte anos, a praça do Rossio, mais tarde Tiradentes, onde estava a livraria Paula Brito, próximo da zona de meretrício.

As referências teatrais suportam a caracterização dos personagens. O autor dirigia-se a um público que frequentava o teatro, logo conhecia suas referências do teatro Francês. Porém o leitor moderno desconhece o contexto teatral da época de Machado. essas notas procuram auxiliar a leitura.

Ressentida pelo abandono do amante, Marocas foi seduzida por um malandro: Leandro. Dado a categoria tão baixa do sedutor, jamais imaginaria que o Doutor Andrade viria a saber que foi consolada por Leandro, personagem típico do mundo carioca que transita entre a classe alta, a dos advogados, e a baixa na região do meretrício. Os personagens são tipos cariocas da época bem caracterizados , a "viúva" que frequenta uma igreja de pessoas "moralistas" depois de ter abandonado a prostituição. O advogado, homem casado e de posses, com poder na burocracia estatal, que comete o adultério. E o malandro que vive da extorsão criando situações embaraçosas para delas tirar proveito.
A questão oculta que o autor deixa em aberto para completmento do leitor: Por que Marocas traiu Andrade?
Trata-se de um retrato da vida real ou pura imaginação de romance? Esse ponto revela a técnica de Machado no conto e no romance: deixar uma questão em aberto instigando a imaginação do leitor para completar a sugestão do texto.
Observa-se que nada existe em excesso na descrição de Machado. Todas as referências, os lugares e as datas, existem e se justificam na medida que delas necessita o autor na sua composição.

A teoria do conto - Ricardo Piglia (1941 - 2017)
Em Formas Breves, (ISBN 9788535904536 , traduzido para o português por José M. M. de Macedo), Piglia dedica um ensaio a respeito da escrita do conto - Teses sobre o conto, pg. 56.
Tese 1: Um conto sempre conta duas histórias: Uma descrevendo um relato visível e outra uma descrição oculta. O relato visível lança pistas e se conecta com o relato oculto até o final do conto onde se encotram, desvendando o efeito surpresa que a primeira história desperta.
Em singular ocorrência temos dois observadores de uma recatada viúva saindo da igreja. O diálogo abre e encerra o conto.
Em paralelo, conta a história da viúva em retrospectiva: uma prostituta que teve um romance com um homem casado.
Para Piglia, "o conto é um relato que encerra um outro relato secreto. Como contar uma história enquanto se conta outra? Essa questão sintetiza os problemas da escrita de um conto".
Tese 2: A história secreta e a chave de decifração do conto.