Poema de sete faces

Carlos Drummond 1928

para Elza Conceição

Drummond  A Revista - 1925

As sete fases da vida

Descritas por Shakespeare

Fase 1.  Nascimento e caminho na vida

quando eu nasci, um anjo torto.

desses que vivem na sombra.

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida


Ao nascer, brota uma esperança. Acredita-se no anjo da guarda, um protetor ao longo da vida. Um anjo torto é o contrário: desviará o poeta do caminho simples e reto. Porém, como um demônio, dirá coisas ao poeta que desconhecemos.

Os anjos são emissários de luz, esses o contrário, como Lúcifer,  vivem na sombra.

E o anjo disse: Vai, Carlos! abrindo um novo caminho pleno de esperanças. 

O contraponto é:  Ser gauche na vida. O  poeta não terá uma vida fácil qualquer.

Gauche em Francês pode ser entendido como “maldroit”, uma falta de endereço, um caminho incerto e desconhecido. 

Drummond volta à questão da infelicidade de seu nascimento no poema :

Confidência do Itabirano

“ nasci em Itabira, por isso sou triste...e o hábito de sofrer que tanto me diverte, é doce herança itabirana”.

Fase 2.  O menino descobre o sexo.

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos


O menino descobre o sexo,através das frestas e janelas. Dentro delas ficam a espiar e a fofocar sobre os homens adúlteros. Tudo estaria bem, como em uma tarde calma de céu azul, não fosse o desejo que brota da carne.

No poema

 Casamento do Céu e do Inferno,

 do mesmo livro,o mesmo tema: “No azul do céu de metileno..Diabo espreita por uma frincha… e a carne penetra na carne.” 

Azul de metileno denota o farmacêutico Carlos Drummond que se formou e nunca exerceu a profissão. 

Fase 3 - O jovem na cidade grande - novos horizontes.

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.


Aos dezoito anos Drummond muda-se para Belo Horizonte. Conhece a modernidade, o bonde e Mário de Andrade que visita a cidade em 1924.

 As  mulheres elegantes usam meias coloridas, vão sentadas no bonde aberto mostrando as pernas.

Belas e inacessíveis, só podem ser admiradas pelo jovem estudante, coisa que não existia em Itabira: 

Confidência do itabirano 

“ a vontade de amar.. vem de Itabira, sem mulheres e sem horizontes”.   

Fase 4: O jovem transforma-se em um homem sério. 

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode


Na quinta fase da vida Shakespeare propõe

um homem de bigode, conforme a foto.

A fotografia ilustra o poeta reservado, sério, simples e forte.. Dentre os raros amigos, Pedro Nava assim descreve Carlos:

“a face descarnada, a boca bem desenhada meio encoberta pelos bigodes de época”. Memórias/4, 

Fase 5: A perda do filho, torna fraco o homem forte. 

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus,

se sabias que eu era fraco.


Carlos Drummond tinha perdido um filho que viveu poucas horas. Esta evocação  representa a dor de um pai que perde o filho.

Em Mateus, 27:46 - já na cruz, o filho de Deus, Jesus, reclama ao Pai:

 “Meu Deus, por que me abandonaste”. 

A dor de Jesus, Deus - Filho, pede ao Pai: Por que me deixaste morrer assim? é a mesma de Drummond enquanto pai que perde o filho. 

Jesus suportou esta prova, afinal ele era Deus, o poeta, porém, o poeta é humano e fraco, só os versos são capazes de expressar essa dor.

Fase 6 : Em busca do verso.  O poema que não quero.

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração


Mário de Andrade em 1925 no artigo A escrava que não é Isaura, já afirmava - “Quanto à rima…. não se discute.”

Não seria difícil para Carlos construir versos com rimas do tipo (mundo / raimundo ou solução / coração). Porém não era esse o caminho da poesia modernista. A rima e a métrica não é a solução para esta nova poesia. 

 No editorial da Revista de 1925, para os céticos, Carlos Drummond é um dos editores, veja a foto, ironiza os poetas provincianos com suas métricas e rimas. 

No conflito entre o interior humano e o mundo, por mais vasto que ele seja, a vida é maior. O que brota do coração é exclusivo do indivíduo, as coisas do mundo são compartilhadas por todos.

 Como diz Alberto Caeiro em

 O rio da minha aldeia

 “ poucos sabem qual é o rio da minha aldeia...e por isso, porque pertence a menos gente, é mais livre e maior o rio da minha aldeia”.

Fase 7: A confissão do poeta modernista.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.


Na prosa coloquial a poesia modernista encontra seu caminho natural.

A estrofe é uma colagem de emoções composta da Natureza (a lua), das coisas (o conhaque) e do indivíduo (a gente).

 A expressão vulgar “como o diabo”, fecha a relação de intimidade entre poeta, poema e leitor. 

Expulsando o poema de dentro de si o poeta alcança todos os leitores, abraça-os e torna-os cúmplices no sofrimento, aliviando sua própria dor.